segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um mundo grande, para um feliz 2010.


Ao ler o Drummond nesta manhã de final de ano, pensei que não havia melhor mensagem para me despedir de 2009, e abrir as portas para o novo ciclo que se inicia.

E deixo-a nessas linhas, com desejo de que todos os corações cresçam no sentido de tempo e na direção do mundo - que não se acaba.

Que 2010 traga poesias, flores, amores.

Traga esperança e beleza para além das dificuldades dos nossos dias, que se erguem permeados de dores e misérias humanas. Dias melhores hão de vir, e virão pelas nossas mãos. Movidos pelos corações que pulsam e se expandem rompendo as cortinas dos escritórios engravatados e pautados pelas cifras bancárias.

Felicidades verdadeiras, para todos nós!

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Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso,
amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros, tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos, tão calma!
Vai inundando tudo...Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e
convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
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Carlos Drummond de Andrade
E a foto é minha. Be e Sol olhando o mundo grande, do alto dos seus quase 3 anos de idade.

domingo, 6 de dezembro de 2009

esperança ao ar livre


(Ah, os rostos sentados
numa sala de espera.

Um "Diário Oficial" sobre a mesa.
Uma jarra com flores.

A xícara de café, que o contínuo
vem, amável, servir aos que esperam a audiência
[marcada.

Os retratos em cor, na parede,

dos homens ilustres
que exerceram,
já em remotas épocas,

o manso ofício
de fazer esperar com esperança.

E uma resposta, que sempre será a mesma: só amanhã.
E os quase eternos amanhãs daqueles rostos sempre
[adiados
e sentados

numa sala de espera.)

Mas eu prefiro é a rua.
A rua em seu sentido usual de "lá fora".
Em seu oceano que é ter bocas e pés
para exigir e para caminhar.

A rua onde todos se reunem num só ninguém coletivo.
Rua do homem como deve ser:
transeunte, republicano, universal.

Onde cada um de nós é um pouco mais dos outros
do que de si mesmo.

Rua da procissão, do comício,

do desastre, do enterro.
Rua da reivindicação social,
onde mora
o Acontecimento.

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.


De Cassiano Ricardo (sala de espera) - para todas as nossas esperanças e desejos de mudança do lado de fora. Uma doa dose de ânimo poético para enfrentar e participar da rua de nossos dias.

E a foto é minha, com as crianças correndo e construindo a realidade que se apresenta nos arredores da chácara.

domingo, 29 de novembro de 2009

O tempo e as essências


33 anos, enfim. Chego ao meu novo ano no lugar de onde vim.
Retornei, para alguns dias, à casa materna, aos amigos do peito, ao pai e à mãe, à família de sangue, à família espiritual e à família que a gente escolhe.

Na companhia do meu filho, acolheram-me as minhas raízes e o amor que me nutriu até a partida para uma nova etapa no planalto central do Brasil. Emocionei-me, sem pudor, com cada abraço e cada sorriso que ganhei ao longo dos dias. E fiquei feliz, intensamente feliz, como uma criança de 3 anos imersa no mar pela primeira vez. Enquanto meu filho pulava as ondas e lambia as gotas salgadas com o prazer da descoberta, eu redescobria as minhas essências - com o mesmo prazer do desconhecido.

Tão bom saber que certas coisas não mudam! E não mudam porque são verdadeiras - e crescem a cada dia, à despeito da distância. Mudam-se os detalhes, as circunstâncias, as cores da vida cotidiana. Mas algumas essências resistem ao tempo e ao espaço. E são elas que nos impulsionam para todas as coisas que se seguem.

Sim, somos passado, presente e futuro, numa linha de tempo circular. O que foi, ainda é - e é para ser enquanto houver amor e vontade. O que não é mais um dia foi, e por isso ainda existe - em algum lugar, numa nova forma que se criou a partir do que já não mais pode ser.

E hoje agradeço por tudo que sou, pelos sentimentos verdadeiros que troquei, e ainda troco, com todos aqueles que me compõem. Agradeço por ver crescer o que plantei ao longo dos anos, pelas sementes férteis que foram regadas com cuidado e floresceram em amizades e histórias lindas, que hoje se reproduzem sozinhas. Acho que esse é o melhor presente que se pode ganhar aos 33.

E deixo aqui um registro especial para um lugar também especial: a roda de samba do ouro verde.

No pé do Marapé, em Santos, um clube de bairro se torna um lugar mágico aos sábados à noite. O ouro verde se perpetua no tempo com a energia boa daqueles que sabem que samba se faz com humildade e felicidade.
É cultivado com muito carinho pelos seus sambistas de cabelos brancos e encanto inigualável, sempre sorridentes pelo simples prazer de se fazer samba. Rodeados por amigos, familiares e pessoas queridas que cantam as letras imortais dos velhos e bons sambas, o ouro verde não perde sua essência. E que bom poder fazer parte, um pouquinho só, dessa grande família unida pelo que a nossa música brasileira tem de melhor.

Estive lá, depois de alguns anos, e fui recepcionada pelos mesmos olhares delicados, pela mesma identificação e admiração, e pela vibração boa de seus repiques, cavacos, trombone, tamborins, pandeiros e afins. Encontrei as mesmas personalidades ao redor, as mesmas palmas, o mesmo passo candenciado no pé. Estou certa de que minha alma de sambista ali encontrou guarida. E sempre estará por lá, como as dos que se sentavam no meio da roda e já se foram.

Nelson Cavaquinho anunciou que "o sambista vive eternamente, no coração da gente". E no meu coração, o Ouro Verde vive eternamente.

Deixo uma foto de lá. E sigo para enfrentar o novo ano renovada pelos amores que me fazem o que sou hoje.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O meu destino e eu


Não sou a areia onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo, em cada praia renascendo outra.

Sou a orelha encostada na concha da vida,
sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

de Lya Luft

"Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino;
um homem é, afinal, suas circustâncias" - de Jorge Luiz Borges
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Deixo as reflexões que tem me conduzidos nestes dias, e sigo correndo para cumprir o meu destino - que nesta semana me reserva grandes desafios.
E deixo também uma foto que tirei no fim de semana, que foi permeado por crianças livres e nuas correndo pelo jardim.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

brasileiro que nem eu


Descobrimento

de Mario de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.


E esse na foto é o seu Binu - que no norte de Minas Gerais, onde o conheci e o fotografei, me ensinou que somos todos brasileiros, nessa vasta terra de diferenças, desigualdades e riquezas culturais.

a dura e necessária solidão


Nesses tempos muito tenho pensado sobre solidão, amor, relacionamento. Sobre conjugar o eu, meu, com os outros eus. Esse meu eu cheio de vontades e facetas. E os outros eus com demandas e expectativas - justas expectativas - apontadas em minha direção. Encanto-me e assusto-me, ao ver o tamanho do desafio.

Muito venho pensando sobre ser, verdadeiramente. Sobre realizar os próprios impulsos e vocações, rumo ao lugar no qual apenas nos cabe. A cada um, individualmente, nessa dura e solitária viagem em direção a nós mesmos. Necessária para que se possa voltar - só assim inteiro, para o convívio com o mundo.

Venho vivendo. Imersa em afazeres e cuidados que se multiplicam. Imersa em mim e nos que hoje me cercam com tanta intensidade. Disputo-me, com pressa de entender algo que ainda não alcanço. E sempre regida pela martelada seca do tempo que corre, e que vê crescer os amores que me compõem.
Compartilhar, sem me perder de vista: eis o grande desafio.

E, em meio a tudo isso, encontro o Rilke. O Rilke maduro, que no final da vida escreve no livro "o testamento", e nos deixa de presente:

“...
E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de mim mesmo. Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para o lugar mais perto de ti – por mais que aí ele seja grande, sensível, jubiloso ou timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração da minha vida.
Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me que podias abarcar todos os tipos de amor por mim. Ah, controla-te,..., resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida, fortalece-me como pode. Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim.
Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para a própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado”.

Sábio Rilke.

Estudo suas palavras, que me aliviam a alma.

E a foto que tirei na praia de Tibau do Sul - Rio Grande do Norte, hoje me lembra do mar - com aquela boa saudade de olhar a vida que vai e vem, infinitamente.




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Hermético


Quem fala que sou esquisito, hermético
É porque não dou sopa, estou sempre elétrico
Nada que se aproxima, nada me é estranho
Fulano sicrano e beltrano
Seja pedra, seja planta, seja bicho, seja humano
Quando quero saber o que ocorre a minha volta
Ligo a tomada, abro a janela, escancaro a porta
Experimento tudo, nunca me iludo
Quero crer no que vem por aí, beco escuro
Me iludo
passado presente futuro
Viro, balanço, reviro na palma da mão o dado
Presente futuro passado
Tudo, sentir de todas as maneiras é a chave de ouro do meu jogo
É fósforo que acende o fogo da minha mais alta razão

de Jards Macalé/Waly Salomão
e na foto eu, Capi (no violão) e Luíza (comendo melancia).
Essa música me acompanha há bastante tempo, no rol das letras que me traduzem - um pouco. A primeira vez que ouvi, na voz do Macalé, senti um arrepio.
Como se quisesse dizer exatamente o que ouvia, por caber tão bem em mim.
Os poetas sabem - e como sabem, encontrar as palavras certas para trazer à tona sentimentos, sensações e questões que estão guardadas lá no fundo, e precisam sair.
Por isso usamos sua voz, e suas palavras, para soltarmos algumas coisas que não estão na superfície.
Eu uso. E faz um bem danado respirar ar puro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Se cada dia cai


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

E a foto é minha, na chapada dos veadeiros. 2007-2008.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Que este amor só me veja de partida


Nessa terça-feira árida, socorri-me da sensatez de Hilda Hist, com seu amor áspero e cristalino.

E a foto que tirei na praia da pipa, Rio Grande do Norte, me fez percorrer um longo caminho até chegar a mim mesma - presa no presente e sentada na sala escura. Quero colo!

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Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

o importante é que a nossa emoção sobreviva


Sigo um tempo de sentimentos desconexos. E à flor da pele.
Os últimos acontecimentos e ventos fortes me arrebataram.
Tempos de tempestade mexem com as estruturas, e é bom que seja assim.
Chega um tempo em que é preciso descontruir.
Repensar, remodelar, renascer. Enfrentar a dor.
Perco de vista tantas coisas que me pareciam certas. O amor, o caminho, o aconchego, a meta. Navego no escuro. E com essa enorme interrogação estampada no peito.

Mas a boa notícia é que estou intensa, viva, latente. E atenta aos sinais que me chegam.

Hoje acordei cantando os versos de Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin, que me sopram aos ouvidos: o importante é que nossa emoção sobreviva.
Não é mesmo?

É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar

E a foto eu tirei no CCBB aqui em Brasília, durante uma exposição de arte para crianças.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ele mesmo, cansaço


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

De Álvaro de Campos

E a foto é da Flávia Vivacqua, numa viagem que fizemos juntas para o sítio de um amigo. Saudades dos amigos.
E cansada demais para escrever ou pensar mais de duas linhas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Labirintos


"Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações.

Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos.

Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto"

De Jorge Luiz Borges
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E na foto um auto-retrato, na exposição do Amilcar de Castro para crianças.

Eu, que venho entrando e me perdendo em tantos labirintos, sem saber como sair.
Mas, por enquanto, não procuro as saídas de emergência. Procuro um melhor jeito de andar por entre as paredes e corredores que se abrem. Procuro o caminho.
Olho para o céu. Imenso. As estrelas apontam direções diversas.
E eu sigo uma voz que vem de dentro.

Meu coração está vivo. E é o que me move.
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Novos Baianos - Arquivo

Fantástico registro dos novos baianos!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

......
Canta, espanta os males sem demora
Fecha os olhos quase chora
E nessa hora sente que é feliz
........

versos de Eduardo Gudin
que hoje cantei de olhos bem fechados

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O lugar a que pertenço


"Aquela solidão, há vinte anos conquistada, não se deve tornar uma exceção, umas "férias" que eu, por meio de muitas justificações, teria de pedir a uma felicidade vigilante. Tenho de viver ilimitadamente nela. Ela deve permanecer a consciência fundadora à qual posso sempre retornar, não com a intenção de lhe tirar repentinamente algum proveito imediato, não com a expectativa de que ela me seja fecunda; antes, de modo espontâneo, discreto, inocente: como o lugar a que pertenço"


Rainer Maria Rilke, do livro O testamento.
E na foto, um auto-retrato, no fim de tarde nos arredores de casa.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Nosso processo de desmame

Estamos em processo de desmame. Sim, está acontecendo. Depois de 2 anos e 8 meses, eu e Bernardo começamos a nos despedir dessa relação intensa que travamos através dos seios. Foram seis meses de amamentação exclusiva, e outros tantos de conforto, amor e nutrição através do leite materno, que lhe dava forças para descobrir o mundo e ganhar a sua independência.

Foram muitos momentos. Tivemos noites difíceis, choros na madrugada, peito feito de chupeta, peito para consolo, peito para carinho. Tivemos também muitos dias de mãe cansada, filho doente grudado no peito, filho feliz grudado no peito, mãe orgulhosa, mãe desesperada por umas horas de sono, enfim. Tivemos muitas horas e momentos conectados pela amamentação, que foram fundamentais para a mãe e filho que somos hoje. E, olhando para trás, não tem sentimento melhor do que saber que dei ao meu filho o melhor que podia dar, além de todo o meu amor e carinho: o meu leite. Isso supera todas as dificuldades e noites mal dormidas. E tenho certeza que esse vínculo conquistado permanecerá para o resto das nossas vidas, consciente ou inconscientemente. E digo: peito demais não faz mal algum. Peito demais nunca é demais.

Hoje sinto que é o momento de iniciarmos um novo processo. Começamos, devagar, a nos relacionarmos sem o peito. No início tirei algumas mamadas. Depois outras. Ficamos de manhã e a noite, e conversamos muito. Todos os dias Bernardo ouvia e falava sobre o desmame. Até que, de fato, colocamos em prática, quando senti que ele estava maduro e preparado para este passo. Há dois meses atrás ele não estava. Agora sinto que sim, ele está, e eu estou feliz por vê-lo crescer seguro e confiante. Estamos assim: tem dias que ele mama para dormir, e dias que não mama. Dias em que acorda e mama, e dias em que acorda e não mama, e devemos seguir nesse ritmo alguns meses. Ele faz carinho no peito, abraça, pede para ver, beija, diz tchau. E assim vamos caminhando, com muita naturalidade. Sem choros incansáveis, sem choro assistido, sem escândalos, sem soluços. Como eu gostaria que fosse: um processo inevitável, que aconteceria quando fosse a hora, sem gerar traumas, aflições, angústias e, principalmente, sem pressa. Bonito e carinhoso, como toda a nossa jornada até aqui.

Toda criança, bem como toda mãe, tem o seu tempo - só seu, para se despedir do peito. Um tempo que não tem regras pré-estabelecidas, um tempo que só pode vir de dentro de cada um. Como um fruto maduro que cai da árvore quando está pronto para ser colhido. Como um bichinho que ganha o mundo sem sua mãe, quando está pronto para enfrentar sozinho a natureza. Por aqui vamos fazendo o nosso tempo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

gritar eu bem gritei!

Eu vivi na cidade
No tempo da desordem
Vivi no meio da gente minha
No tempo da revolta
Comi minha comida
No meio da batalha
Amei, sem ter cuidado
Olhei e tudo que via
Sem tempo de bem ver
Assim passei o tempo
Que me deram pra viver
A voz da minha gente se levantou
E a minha voz junto com a dela
Tenho certeza que os donos da terra
Ficariam mais contentes
Se não ouvissem minha voz
Minha voz não pode muito
Mas gritar eu bem gritei!
de João do Vale/José Cândido

terça-feira, 25 de agosto de 2009

estou dando batalha


Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar, não se carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque.
Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais _ a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha.
De Guimarões Rosa
E a foto é minha. Uma cena em Barra, sertão da Bahia, às margens do Rio São Francisco. Uma viagem que ainda hoje me traz aprendizados.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

com licença poética



Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.

De Adélia Prado.
E a foto é minha.
Juju, uma amiga muito querida que ajuda a carregar as bandeiras.


domingo, 16 de agosto de 2009

sábado, 15 de agosto de 2009

um pé no chão e um sabiá


O Dina,
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar

Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é,
Perna no mundo sumiu

E hoje,
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
Passado é um pé no chão e um sabiá
Presente é a porta aberta
E futuro é o que virá

- de Gonzaguinha,
que hoje me emociona com a trajetória de vida que conta numa única melodia,
e me remete a mim mesma, a lama dos meus sapatos, a porta aberta com o vento que bate, e o futuro que virá, hoje mais incerto que nunca. só espero que o fogo realmente nunca se apague.
e na foto eu e Bernardo, que um dia vai colocar as suas pernas no mundo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vitória nossa de cada dia....


"Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.

Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.

Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de sermos inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.

Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.

Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.

Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.

Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.

E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia"


De Clarice Lispector - do livro "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"
E a foto é minha. Fá, Juju e T, numa caminhada de fim de tarde.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

os degraus


Não desças os degraus dos sonhos
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás de suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco esse nosso mundo…

De Mario Quintana

E a foto é minha, no dia dos pais.
Balanço na árvore, vento no rosto.
Alguma esperança.

domingo, 2 de agosto de 2009

na ponta dos pés o salto


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas.
Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.

.........

À extremidade de mim estou eu.
Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta.
Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo.
E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.
De Clarice Lispector

E a foto é minha. À beira de.
Quase explodindo nessa noite de domingo.
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quinta-feira, 30 de julho de 2009


"Esfoce-se para amar as suas próprias dúvidas, como se cada uma fosse um livro fechado, um livro escrito em idioma estrangeiro. Não procure, por ora, respostas que não lhe podem ser dadas, porque não saberia ainda colocá-las em prática e vivê-las. E trata-se precisamente de viver tudo. No momento, viva apenas as suas interrogações. Talvez que, somente vivendo-as, acabe por um dia penetrar, sem perceber, nas respostas"

De Rainer Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta.
e a foto é minha, que sigo vivendo, intensamente, as minhas interrogações.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Desdobrável


“Dor não tem nada haver com amargura.

Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais,

é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável.

Cada dia mais rica de humanidade.”

Adélia Prado


e a foto é minha.
Be com o pé na lama, terra entre os dedos.
pisar na essência, renovar as energias. fundamental.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

a cada mil lágrimas...

se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido

a cada mil lágrimas sai um milagre

em caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa, coma somente a cereja
jogue para cima, faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas, viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena, reze um terço
caia fora do contexto, invente seu endereço

a cada mil lágrimas sai um milagre

mas se apesar de banal
chorar for inevitável, sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre

a cada mil lágrimas sai um milagre

de Itamar Assumpção e Alice Ruiz.

sempre me faz sentido.

terça-feira, 30 de junho de 2009

poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
DE MANUEL BANDEIRA
E na foto eu e Carina. Carnaval de 2008.

quinta-feira, 25 de junho de 2009


Tão bom voltar.
Sentir familiaridade.
Dar aquele abraço gostoso, cheio de cumplicidade.
Conversar aquela conversa antiga, sobre tantas coisas da vida.
Reviver a história compartilhada.
Ouvir quem te conhece, e sabe de tantas coisas que não estão na superfície.
Pisar em terra firme. Porto seguro.
Tão bom.

Um dia ainda volto para onde faço sentido.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Tem dias...


"Tem dias que a gente se sente,

Como quem partiu ou morreu"

.............

segunda-feira, 8 de junho de 2009

destino dado


"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando.
Mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."

de Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas.
Um dos mais belos livros, sobre a vida, que eu já li.
Grande travessia literária.
e a foto é minha.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

SARAVAH

Trechos do histórico filme do francês Pierre Barouh.
Sem mais palavras.
Beleza musical do começo ao fim.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

uma viola-de-amor

Dêem ao Homem Uma Viola-de-Amor e façam-no cantar um canto assim...
Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais...
Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos...
Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem delinqüência....
Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranqüilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca de que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para que eu cresça sempre no sentido de Tempo...

Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm.
E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre como um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos e dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e que meu largo canto vibre acima dos ódios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...

Dêem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste de tanta vã mentira que lhe ensinaram.

de Vinícius de Morais.
E a foto é minha.
Bernardo, Alice, Sol e Igor em momentos que me motivam a vibrar acima de todas as incoerências e impertinências do dia-a-dia, que insistem em ofuscar meus olhos para o que realmente importa na vida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Música da Lagoa

Hermeto fazendo música, e vivendo música.
Como deveria ser. Simples e verdadeiro.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Estou cansada. De fato, estou cansada.

..........

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



De Álvaro de Campos
E a foto é minha. Bob e Mara, nossos ex-vizinhos, num momento de paz.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O que vejo de longe, é o que ainda não vivi?


“Com as virtudes que esqueci
Posso fazer-me um traje novo?”

“é verdade que no formigueiro
Os sonhos são obrigatórios?”

“é verdade que as esperanças
Devem regar-se com orvalho?”

“e uma palavra não se arrasta
Às vezes como uma serpente?”

“em que janela fiquei
Olhando o tempo sepultado?”

De Pablo Neruda, do Livro das Perguntas.
E a foto é minha. Cultura Popular aqui no DF

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Somando as incompreensões é que se ama


.....E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto.

E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante......

Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer.....

... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.

É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão....


Trechos de "Perdoando Deus"

Clarice Lispector
E a foto é minha. Cenas do fim de tarde no planalto central


segunda-feira, 18 de maio de 2009

viva as quartas-feiras


"Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhece os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras”.


de Mario de Andrade

não sei quem tirou a foto. mas o dia de amigos foi ótimo. eu, Be, Kiara, Luiza, Tetê e Guta, ainda grávida.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"...Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga.
Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira— só meu companheiro amigo desconhecido. Escondido enrolei minha sacola, aí tanto, mesmo em fé de promessa, tive vergonha de estar esmolando. Mas ele apreciava o trabalho dos homens, chamando para eles meu olhar, com jeito de siso. Senti, modo meu de menino, que ele também se simpatizava a já comigo."


De Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas

Riobaldo e Diadorim





E a foto é minha. Bernardo, meu menino maluquinho.

sábado, 9 de maio de 2009

o nome dos poetas populares....

A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó
E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

Os livros que vieram para cá
O Lunário e a Missão Abreviada
A donzela Teodora e a fábula
Obrigaram o sertão a estudar
De repente começaram a rimar
A criar um sistema todo novo
O diabo deixou de ser um estorvo
E o boi ocupou outros lugares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
O nomes dos poetas populares
.....
Maria Bethânia deu voz e alma a esse poema de Antônio Vieira.
Que deveria estar na boca do povo.
DONA MARIA DO BATUQUE
Essa é a Dona Maria do Batuque.
São sei se ainda está viva, mas é certo que o som dos seus tambores ainda ecoa em São Romão, interior de Minas Gerais, uma pequena cidade esquecida pelo tempo, às margens do Rio São Francisco.
Tive o prazer de conhecê-la durante uma viagem pelo interior do Brasil. Foi uma viagem transformadora, onde tive o privilégio de viver um Brasil que não conhecemos pela televisão e pela realidade das grandes cidades. Um brasil de pé no chão, chão de terra. De dias longos, de horizonte largo, de necessidades que não compreendemos.
Um Brasil humilde, de gente seca pelo clima do sertão. Gente que espera, ajoelha e reza, com resignação. Mas gente de indizível beleza humana. E de grande sabedoria, que não vem com a leitura de livros ou com os ensinamentos da ciência. Sabedoria sobre as coisas da vida, aprendidas pelo simples viver da realidade.
Dona Maria do Batuque leva adiante uma tradição que aprendeu com seus avós: o batuque. Uma tradição popular que leva às ruas da pequena cidade a música e a dança do batuque, para ser compartilhada por todos. Tomamos um café com ela que, junto com seus netos, nos mostrou o que sabia sobre a cultura popular de sua região. Afinou seus tambores, e com a voz rouca pela idade avançada, cantou as canções que vêm de outras gerações. E as crianças, todas, seguiram a mesma melodia popular, batendo os tambores e cantarolando as rimas dos antepassados, tão atuais como as músicas que tocavam no rádio de pilha.
Dona Maria do Batuque deveria estar na boca do povo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Rilke

“Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso;
é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes.
Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua existência".
de Rainer Maria Rilke

terça-feira, 5 de maio de 2009

Bem no fundo

No fundo, no fundo, bem lá no fundo,
a gente gostaria de ver
nossos problemas resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada, e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.



De Paulo Leminki

E a foto é minha. Bil, Be, Ju, Theo e Nina num passeio de domingo

domingo, 3 de maio de 2009

Orquestra Popular de Câmara

Perdi as contas de quantas vezes assisti a Orquestra Popular de Câmara às quartas-feiras à noite, no Supremo Musical, em São Paulo.
Eram noites deliciosas. Cada semana levava um amigo diferente, precisava compartilhar aqueles momentos musicais com todo mundo que gostava.
O espaço era pequeno, aconchegante, e a música tomava conta de tudo. Criava-se uma atmosfera incrível, as notas preechiam todos os espaços, dentro e fora da gente.
Um copo de vodca, um bom papo, e música instrumental brasileira da mais alta qualidade.
ô saudade!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Tenho tantas vontades. Sou cheia delas.
Inundam-me diversas facetas de mim mesma.
Tantos contraditórios em carne viva.

Mas já aprendi que a escolha é a única saída possível.
E que a gente arde, sempre, seja qual for o caminho.

Quanto mais vivo, limito-me,
para caber em mim.
Permito-me a dúvida,
E a contingência.
Para respirar dentro do pequeno espectro possível.




Essa sou eu. A lente é do Bil, que muito me vê.

às vezes me pergunto porque não fui viver de música.
tem coisa melhor?

quarta-feira, 29 de abril de 2009

grito-me


"E talvez meu desejo de outra fonte, essa ânsia que me dá ao rosto um ar de quem caça para se alimentar, talvez essa ânsia seja uma idéia – e nada mais.


Porém – os raros instantes que às vezes consigo de suficiência, de vida cega, de alegria tão intensa e tão serena como o canto de um órgão – esses instantes não provam que sou capaz de satisfazer minha busca e que esta é sede de todo o um ser e não apenas uma idéia? Além do mais, a idéia é a verdade!
Grito-me.”
de Clarice Lispector
e a foto é minha. uma cena na casa da Renata.

Amamentar é, também, um ato de amor

Esse vídeo me emocionou. Achei lindo, simples e poético.
Como mãe, e mamífera, compartilho deste amor, que a tela nos mostra com tanta leveza e naturalidade.
Acredito no aleitamento materno.
O melhor alimento que seu filho pode ter, durante os primeiros anos de vida.
Leite, seios, lábios, amor.
Vida.
Saúde.
Viva!

segunda-feira, 27 de abril de 2009




“...e não me reste de tudo, ao fim


Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber


Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe


Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa


De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.”


- Vinícius de Morais -


A foto é do Bil - e eu sou a modelo, grávida do Be

A Barca Turista aprendiz

Um projeto que inspira.
De raizes sólidas, de criatividade e qualidade.
Voltemos a elas, para aprender e reproduzir o que há de bom.
Para que façamos música, todos, na sintonia boa de compartilhar a cultura popular brasileira.
Dança, música, poesia e religiosidade, no mesmo passo dos tambores.

Parabéns para A Barca. Trabalho íntegro desde sempre.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

viroses do início do outono

Feriado de virose. Bernardo com febre.

Estamos agora no fim do ciclo. é preciso paciência para esperar o processo de amadurecimento do corpo. Uma coisa que aprendi foi a encarar as doenças infantis como processos de fortalecimento do organismo. De aprendizagem.

Aprendi a superar meus medos maternos, e confiar no meu filho.

Claro, estou com ele nessa jornada, lado a lado, com todo meu amor.



O menino doente
O menino dorme.
Para que o menino
Durma sossegado,
Sentada ao seu lado
A mãezinha canta:
— "Dodói, vai-te embora!
"Deixa o meu filhinho,"
“Dorme . . . dorme . . . meu . . ."
Morta de fadiga,
Ela adormeceu.
Então, no ombro dela,
Um vulto de santa,
Na mesma cantiga,
Na mesma voz dela,
Se debruça e canta:
— "Dorme, meu amor."
Dorme, meu benzinho . . . "
E o menino dorme.


De Manuel Bandeira

A foto é do Bil. Eu e Bernardo, conectados pela amamentação.

sábado, 18 de abril de 2009

vermelho gente

Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
a vida das pessoas, penetrando nos esquemas
como a tinta sangue no mata borrão,
crescendo vermelho gente,
entre pedra e pedra, pela terra a dentro.(...)
carrego o peso da lua,
três paixões mal curadas,
um saara de páginas, essa infinita madrugada.
Viver de noite me fez senhor do fogo.
a vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse eu mesmo carrego"

Leminski
A foto é minha. Exposição de arte para crianças no CCBB-Brasília

sexta-feira, 17 de abril de 2009

sonhos, sonhos......


No início tudo é sonho.
No início os sonhos são somente sonhos, sozinhos, habitantes de um mundo distante.
No início os sonhos são esperanças.
Depois começam, tímidos, a tomar corpo, a ficarem visíveis, quase palpáveis.
É quando, então, começa-se a acreditar neles.
É quando eles se tornam amigos, únicos, insubstituíveis.
Sonhos são então possibilidades, que alegram o dia, que movem as pernas, que impulsionam o corpo.
São o verdadeiro motivo, a verdadeira espera, o verdadeiro caminho.
São agora próximos, vizinhos.
Caminham passo a passo,
Dividem nossos anseios, nossa volúpia, nossas vontades mais secretas.

Sonhos vão crescendo, proliferam-se na escuridão, tomam conta do espaço vazio do quarto quando apagamos a luz.
É preciso cultivá-los, fazê-los prosperar, plantá-los nas ruas, nos jardins, nas árvores.
Sonhos, são, quem sabe, o que seremos amanhã, o que deixaremos para o mundo, o que será continuado por outro sonho desconhecido.
Sonhos são inocentes, assustados.
É preciso segurá-los, não lhes deixar escapar por entre os dedos, por entre a vil realidade, opressora.
Sonhos são o que nos aproximam de verdade das demais pessoas, tornando-as parte da nossa alma, da nossa loucura, da nossa lucidez.
Sonhos se revelam, esclarecem mistérios, nos fazem compreender o que normalmente não compreenderíamos.
Sonhos são forças, são deuses, são a própria essência, disfarçada, brilhante, colorida.
Sonhos não tem fim, ou melhor, são o próprio fim.
A memória é fraca, a vida é fraca.
No fim, por certo, tudo acaba. E no fim tudo é sonho

Escrevi fazem alguns anos.
E a foto tirei faz pouco, em casa. Be num momento de liberdade.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Cada um de nós é por enquanto a vida




"Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até os ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste."

De José Saramago

E a foto é minha. Be e Theo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

O Direito Achado na Rua

“Kant e Fichte buscavam o país distante
pelo gosto de andar lá no mundo da lua,
mas eu tento só ver, sem viés deformante,
o que pude encontrar bem no meio da rua”
(Roberto Lyra Filho, Desordem e Processo).


A foto é minha - coisas do céu de Brasília

uma partida

Minha avó patena faleceu no final do ano passado. Ela tinha pavor de médico. Sentia um caroço crescer no seu seio. O caroço crescia, crescia. Ela tinha 85 anos. Não falou nada pra ninguém. Emagreceu, perdeu o apetite, mas continuou a viver a sua vidinha, cercada pelas pessoas que gostava, fazendo o que gostava, e em silêncio sobre o tumor que tomava conta de seu seio. Passaram- se meses. Nem uma palavra. Ela continuou fazendo seu tricô, cozinhando, cercada pelos netos, sentada na sua cadeira perto da janela, onde via o mundo, e o mundo passava por ela. Até que ela parou de comer, e começou a se sentir fraca. Foi quando pediu ajuda. Quando estavam a caminho do hospital, ela disse para a minha tia: "eu tenho câncer". Minha tia achou que ela não estava batendo bem. Chegaram no hospital. Quando a entubaram, ela desligou do mundo. Passou dois dias na UTI. Quando chegou o resultado do exame (câncer, sim, que havia se espalhado pelo seu corpo adentro) ela já estava morta. Nunca ouviu o diagnóstico da boca de nenhum médico, não fez um exame, não perdeu um fio de cabelo. Pergunto: se ela tivesse se submetido a um tratamento quimioterápico, ela estaria viva hoje? Foi difícil para os filhos aceitarem a escolha dela. Eu a admirei como nunca.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

radicais do pouco


“Sim, todos vos que representais o mundo,
homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.”

De álvaro de campos
E a foto é minha. Numa ida ao circo.

sábado, 11 de abril de 2009

paulista também tem samba no pé

Quinta-feira nos aventuramos e conseguimos assistir a um show.
KikoDinucci e Bando afromacarrônico, no espaço Brasil Telecom.
Estamos escutando muito esses dias.
E que delícia de show. Bernardo dormiu no meu colo, e quase no final do show já estava difícil mantê-lo assim. Ficou inquieto. Mas o som dos tambores estava afinado, fiquei grudada na cadeira, dançando como podia.
Deu saudade dos batuques de São Paulo, dos espaços, dos amigos.
Saudades das noites inusitadas, das luzes que não se apagam, dos bares que não fecham, das festas nas casas dos amigos, e das rodas de samba paulista, sempre alegres e com muito samba no pé.

Aqui o link para um vídeo dos caras: http://www.youtube.com/watch?v=l9b1RCpe3Pc

"Sinto falta de São Paulo
De escutar na madrugada
Uns bordões de violões, e uma flauta a chorar prata"
Faço dos versos de Eduardo Gudin os meus lamentos de hoje.

terça-feira, 7 de abril de 2009

sucedido desgovernado

"o que vale, são outras coisas.
a lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não se misturam. contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. de cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. sucedido desgovernado. assim eu acho, assim é que eu conto.
tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data"

De Guimarães Rosa

coisas de dentro da gaveta

Foto que tirei do Bil, no CCBB Brasília


Faz tempo que escrevi. Mas o sentimento está aí para ser compartilhado.


Hoje eu rezo.
Rezo antes de deitar, uma prece solitária, com a cabeça no travesseiro e os olhos fechados para sentir o escuro.

Que meu coração não saiba que um dia eu chorei por ele.
Que ele não escute um lamento sequer, pois os lamentos são efêmeros quando exteriorizados.
Que meus lamentos sejam silenciosos, contidos, latentes.
Que a minha solidão de hoje seja só minha, como um fruto que colho pelos acontecimentos.
Que a minha dúvida ande sempre paralela, arredia, sucumbente.
Que ele não saiba da sua importância, pois as importâncias são individuais e assustadoras.
Que eu consiga acertar o passo, ajeitar a face, conter os sentimentos.
Que a minha explosão possa se diluir, possa se dissipar antes da tempestade.
E a tempestade, se tiver que vir, que deixe a terra úmida para a próxima colheita.
Que meu amor possa vibrar, possa atingir.
Que ele seja forte para agüentar a humanidade, para assimilar os erros e suportar os acertos.
Que eu descubra que ser mulher é ser humano,
Que a vontade de chorar não passa,
Que a vontade de sorrir não passa,
Que a vontade não passa.
Que eu saiba sentir a sua falta,
Que eu saiba respeitar os momentos da minha própria reclusão.
Que eu conheça as limitações e tenha a paciência necessária para aceitá-las.
Que quando a dor chegue, eu saiba reconhecê-la.
E que, sobretudo, como já aprendi,
Meu largo canto vibre acima dos ódios e ressentimentos,
Das intrigas e vinganças,
Nos espaços infinitos.

Antropologia Jurídica

Os esquimós vivem numa região onde, na época do inverno, o frio mata uma pessoa em cinco minutos se ela não estiver adequadamente vestida. Eles têm sido tradicionalmente caçadores e muitos ainda o são e, no inverno, essa atividade torna-se bastante árdua. Partindo desse fator geográfico básico, os esquimós desenvolveram durante muitos séculos uma série de leis que lhes permite sobreviver num dos ambientes mais hostis da terra. Uma dessas leis é: quem tem excesso de carne ou outro alimento deve reparti-lo com os outros. Armazenar comida é um crime mortal na visão desse povo. Em seu ponto de vista, é natural as pessoas dividirem seus bens. Devido a essa crença, os primeiros comerciantes ingleses nunca puderam instalar um posto comercial em território esquimó. Os esquimós sempre estavam dispostos a repartir as suas peles e alimentos com os ingleses, porém nunca conseguiram entender porque estes mantinham um estoque enorme de mantimentos sem dividi-lo. Tal procedimento não lhes era natural ou, melhor, era “crime”. Por três vezes os ingleses estabeleceram postos comerciais no território esquimó no século passado, e por três vezes, após algumas discussões sobre justiça e divisão, as comunidades esquimós simplesmente mataram os comerciantes ingleses e distribuíram seus alimentos. Isto foi “justo” para o direito esquimó, já que, para eles, o crime mortal não era o roubo e sim a ganância.

De Robert Weaver Shirley



















Foto da Ana Moreira, em frente a FUNARTE - Brasília

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O imprevisto improvisado e fatal me fascina

"Está fazendo um dia de sol. A praia estava cheia de vento bom e de uma liberdade. E eu estava só, sem precisar de ninguém. É dificil porque preciso repartir contigo o que sinto. O mar calmo, mas a espreita e em suspeita. Como se tal calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto improvisado e fatal me fascina. Já entrei contigo em comunhão tão forte que deixei de existir sendo. Você tornou-se um eu. É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Difícil contar... olhei pra você fixamente por alguns instantes. Tais momentos são meu segredo”
De Clarice Lispector

Isso de querer ser
Exatamente aquilo
Que a gente é
Ainda vai nos levar além – Leminsk
Foto do Bil, em casa

Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada

Começar não é fácil
Mas hoje escrever foi quase uma necessidade. Minha caixa postal amanheceu vazia de poesia. Sempre tive interlocutores, e trocas.
Quase uma imperativo, vital.
Trocar. poetizar o cotidiano, extravazar.
Rosa-amor-espinho-saudade.

Meu filho dormiu, e o silêncio invadiu o quarto. Sossego.
Ser mãe já é intensidade suficiente.
Mas, eu quero mais um pouco, nesta noite de ventania.

Como diria Clarice Lispector: "estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço".

Mas vamos devagar. Começarei do começo.

Vontade de me contar um pouco através do que leio.
E do que me toca a alma.