quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Silêncios


Ando permeada de silêncios. Imensos espaços vazios. Reticências. Travessões sem falas desmedidas.
Fundamental calar a voz. Deixar os sentimentos pulsarem livremente, sem traduções.
Apenas sentir. Ouvir o silêncio que se ergue cuidadoso, zelando pelo pulsar do peito.

Silêncio branco. Silêncio de muitas faces. Silêncio meu.

Silêncio que colho com os dedos molhados, que tocam a terra fecundada pelas indagações da vida-vivida.

Deixo um poema do Manoel de Barros, que lindamente fotografa o silêncio com poesia. E a foto que tirei de uma de minhas paisagens santistas, que tanto abrigou meu silêncio junto ao mar.

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.