quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vitória nossa de cada dia....


"Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.

Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.

Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de sermos inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.

Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.

Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses.

Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.

Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.

E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia"


De Clarice Lispector - do livro "uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"
E a foto é minha. Fá, Juju e T, numa caminhada de fim de tarde.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

os degraus


Não desças os degraus dos sonhos
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás de suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco esse nosso mundo…

De Mario Quintana

E a foto é minha, no dia dos pais.
Balanço na árvore, vento no rosto.
Alguma esperança.

domingo, 2 de agosto de 2009

na ponta dos pés o salto


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas.
Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.

.........

À extremidade de mim estou eu.
Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta.
Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo.
E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.
De Clarice Lispector

E a foto é minha. À beira de.
Quase explodindo nessa noite de domingo.
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quinta-feira, 30 de julho de 2009


"Esfoce-se para amar as suas próprias dúvidas, como se cada uma fosse um livro fechado, um livro escrito em idioma estrangeiro. Não procure, por ora, respostas que não lhe podem ser dadas, porque não saberia ainda colocá-las em prática e vivê-las. E trata-se precisamente de viver tudo. No momento, viva apenas as suas interrogações. Talvez que, somente vivendo-as, acabe por um dia penetrar, sem perceber, nas respostas"

De Rainer Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta.
e a foto é minha, que sigo vivendo, intensamente, as minhas interrogações.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Desdobrável


“Dor não tem nada haver com amargura.

Acho que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais,

é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável.

Cada dia mais rica de humanidade.”

Adélia Prado


e a foto é minha.
Be com o pé na lama, terra entre os dedos.
pisar na essência, renovar as energias. fundamental.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

a cada mil lágrimas...

se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido

a cada mil lágrimas sai um milagre

em caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa, coma somente a cereja
jogue para cima, faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas, viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena, reze um terço
caia fora do contexto, invente seu endereço

a cada mil lágrimas sai um milagre

mas se apesar de banal
chorar for inevitável, sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre

a cada mil lágrimas sai um milagre

de Itamar Assumpção e Alice Ruiz.

sempre me faz sentido.