domingo, 6 de dezembro de 2009

esperança ao ar livre


(Ah, os rostos sentados
numa sala de espera.

Um "Diário Oficial" sobre a mesa.
Uma jarra com flores.

A xícara de café, que o contínuo
vem, amável, servir aos que esperam a audiência
[marcada.

Os retratos em cor, na parede,

dos homens ilustres
que exerceram,
já em remotas épocas,

o manso ofício
de fazer esperar com esperança.

E uma resposta, que sempre será a mesma: só amanhã.
E os quase eternos amanhãs daqueles rostos sempre
[adiados
e sentados

numa sala de espera.)

Mas eu prefiro é a rua.
A rua em seu sentido usual de "lá fora".
Em seu oceano que é ter bocas e pés
para exigir e para caminhar.

A rua onde todos se reunem num só ninguém coletivo.
Rua do homem como deve ser:
transeunte, republicano, universal.

Onde cada um de nós é um pouco mais dos outros
do que de si mesmo.

Rua da procissão, do comício,

do desastre, do enterro.
Rua da reivindicação social,
onde mora
o Acontecimento.

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.


De Cassiano Ricardo (sala de espera) - para todas as nossas esperanças e desejos de mudança do lado de fora. Uma doa dose de ânimo poético para enfrentar e participar da rua de nossos dias.

E a foto é minha, com as crianças correndo e construindo a realidade que se apresenta nos arredores da chácara.

domingo, 29 de novembro de 2009

O tempo e as essências


33 anos, enfim. Chego ao meu novo ano no lugar de onde vim.
Retornei, para alguns dias, à casa materna, aos amigos do peito, ao pai e à mãe, à família de sangue, à família espiritual e à família que a gente escolhe.

Na companhia do meu filho, acolheram-me as minhas raízes e o amor que me nutriu até a partida para uma nova etapa no planalto central do Brasil. Emocionei-me, sem pudor, com cada abraço e cada sorriso que ganhei ao longo dos dias. E fiquei feliz, intensamente feliz, como uma criança de 3 anos imersa no mar pela primeira vez. Enquanto meu filho pulava as ondas e lambia as gotas salgadas com o prazer da descoberta, eu redescobria as minhas essências - com o mesmo prazer do desconhecido.

Tão bom saber que certas coisas não mudam! E não mudam porque são verdadeiras - e crescem a cada dia, à despeito da distância. Mudam-se os detalhes, as circunstâncias, as cores da vida cotidiana. Mas algumas essências resistem ao tempo e ao espaço. E são elas que nos impulsionam para todas as coisas que se seguem.

Sim, somos passado, presente e futuro, numa linha de tempo circular. O que foi, ainda é - e é para ser enquanto houver amor e vontade. O que não é mais um dia foi, e por isso ainda existe - em algum lugar, numa nova forma que se criou a partir do que já não mais pode ser.

E hoje agradeço por tudo que sou, pelos sentimentos verdadeiros que troquei, e ainda troco, com todos aqueles que me compõem. Agradeço por ver crescer o que plantei ao longo dos anos, pelas sementes férteis que foram regadas com cuidado e floresceram em amizades e histórias lindas, que hoje se reproduzem sozinhas. Acho que esse é o melhor presente que se pode ganhar aos 33.

E deixo aqui um registro especial para um lugar também especial: a roda de samba do ouro verde.

No pé do Marapé, em Santos, um clube de bairro se torna um lugar mágico aos sábados à noite. O ouro verde se perpetua no tempo com a energia boa daqueles que sabem que samba se faz com humildade e felicidade.
É cultivado com muito carinho pelos seus sambistas de cabelos brancos e encanto inigualável, sempre sorridentes pelo simples prazer de se fazer samba. Rodeados por amigos, familiares e pessoas queridas que cantam as letras imortais dos velhos e bons sambas, o ouro verde não perde sua essência. E que bom poder fazer parte, um pouquinho só, dessa grande família unida pelo que a nossa música brasileira tem de melhor.

Estive lá, depois de alguns anos, e fui recepcionada pelos mesmos olhares delicados, pela mesma identificação e admiração, e pela vibração boa de seus repiques, cavacos, trombone, tamborins, pandeiros e afins. Encontrei as mesmas personalidades ao redor, as mesmas palmas, o mesmo passo candenciado no pé. Estou certa de que minha alma de sambista ali encontrou guarida. E sempre estará por lá, como as dos que se sentavam no meio da roda e já se foram.

Nelson Cavaquinho anunciou que "o sambista vive eternamente, no coração da gente". E no meu coração, o Ouro Verde vive eternamente.

Deixo uma foto de lá. E sigo para enfrentar o novo ano renovada pelos amores que me fazem o que sou hoje.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O meu destino e eu


Não sou a areia onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo, em cada praia renascendo outra.

Sou a orelha encostada na concha da vida,
sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

de Lya Luft

"Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino;
um homem é, afinal, suas circustâncias" - de Jorge Luiz Borges
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Deixo as reflexões que tem me conduzidos nestes dias, e sigo correndo para cumprir o meu destino - que nesta semana me reserva grandes desafios.
E deixo também uma foto que tirei no fim de semana, que foi permeado por crianças livres e nuas correndo pelo jardim.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

brasileiro que nem eu


Descobrimento

de Mario de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.


E esse na foto é o seu Binu - que no norte de Minas Gerais, onde o conheci e o fotografei, me ensinou que somos todos brasileiros, nessa vasta terra de diferenças, desigualdades e riquezas culturais.

a dura e necessária solidão


Nesses tempos muito tenho pensado sobre solidão, amor, relacionamento. Sobre conjugar o eu, meu, com os outros eus. Esse meu eu cheio de vontades e facetas. E os outros eus com demandas e expectativas - justas expectativas - apontadas em minha direção. Encanto-me e assusto-me, ao ver o tamanho do desafio.

Muito venho pensando sobre ser, verdadeiramente. Sobre realizar os próprios impulsos e vocações, rumo ao lugar no qual apenas nos cabe. A cada um, individualmente, nessa dura e solitária viagem em direção a nós mesmos. Necessária para que se possa voltar - só assim inteiro, para o convívio com o mundo.

Venho vivendo. Imersa em afazeres e cuidados que se multiplicam. Imersa em mim e nos que hoje me cercam com tanta intensidade. Disputo-me, com pressa de entender algo que ainda não alcanço. E sempre regida pela martelada seca do tempo que corre, e que vê crescer os amores que me compõem.
Compartilhar, sem me perder de vista: eis o grande desafio.

E, em meio a tudo isso, encontro o Rilke. O Rilke maduro, que no final da vida escreve no livro "o testamento", e nos deixa de presente:

“...
E mesmo mais tarde, mesmo agora, mesmo nestas últimas semanas, não acedi à consciência de minha natural solidão, o único meio de me tornar senhor de mim mesmo. Meu coração deslocou-se do meio de seus círculos em direção à periferia, para o lugar mais perto de ti – por mais que aí ele seja grande, sensível, jubiloso ou timorato, não se acha em sua constelação, não é o coração da minha vida.
Em nossos momentos mais doces e talvez mais justos, amada, asseguraste-me que podias abarcar todos os tipos de amor por mim. Ah, controla-te,..., resume-te àquela que, tenha o nome que tiver, assegura a minha vida, fortalece-me como pode. Não posso escapar de mim mesmo. Pois se eu desistisse de tudo, tudo, e me atirasse cegamente a teus braços, como por vezes desejo, e aí me perdesse, terias contigo alguém que houvera desistido de si mesmo: não seria a mim que terias, não a mim.
Não sou capaz de dissimular e me transformar. Exatamente como na minha infância, diante do violento amor de meu pai, ajoelho-me no mundo e peço indulgência àqueles que me amam. Sim, que me poupem! Que não me consumam para a própria felicidade, mas me assistam a fim de que se desenvolva em mim aquela felicidade mais funda e solitária. Sem a grande demonstração dessa felicidade, por fim, não me haveriam de ter amado”.

Sábio Rilke.

Estudo suas palavras, que me aliviam a alma.

E a foto que tirei na praia de Tibau do Sul - Rio Grande do Norte, hoje me lembra do mar - com aquela boa saudade de olhar a vida que vai e vem, infinitamente.




quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Hermético


Quem fala que sou esquisito, hermético
É porque não dou sopa, estou sempre elétrico
Nada que se aproxima, nada me é estranho
Fulano sicrano e beltrano
Seja pedra, seja planta, seja bicho, seja humano
Quando quero saber o que ocorre a minha volta
Ligo a tomada, abro a janela, escancaro a porta
Experimento tudo, nunca me iludo
Quero crer no que vem por aí, beco escuro
Me iludo
passado presente futuro
Viro, balanço, reviro na palma da mão o dado
Presente futuro passado
Tudo, sentir de todas as maneiras é a chave de ouro do meu jogo
É fósforo que acende o fogo da minha mais alta razão

de Jards Macalé/Waly Salomão
e na foto eu, Capi (no violão) e Luíza (comendo melancia).
Essa música me acompanha há bastante tempo, no rol das letras que me traduzem - um pouco. A primeira vez que ouvi, na voz do Macalé, senti um arrepio.
Como se quisesse dizer exatamente o que ouvia, por caber tão bem em mim.
Os poetas sabem - e como sabem, encontrar as palavras certas para trazer à tona sentimentos, sensações e questões que estão guardadas lá no fundo, e precisam sair.
Por isso usamos sua voz, e suas palavras, para soltarmos algumas coisas que não estão na superfície.
Eu uso. E faz um bem danado respirar ar puro.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Se cada dia cai


Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

E a foto é minha, na chapada dos veadeiros. 2007-2008.