quinta-feira, 14 de maio de 2009

"...Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga.
Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira— só meu companheiro amigo desconhecido. Escondido enrolei minha sacola, aí tanto, mesmo em fé de promessa, tive vergonha de estar esmolando. Mas ele apreciava o trabalho dos homens, chamando para eles meu olhar, com jeito de siso. Senti, modo meu de menino, que ele também se simpatizava a já comigo."


De Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas

Riobaldo e Diadorim





E a foto é minha. Bernardo, meu menino maluquinho.

sábado, 9 de maio de 2009

o nome dos poetas populares....

A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó
E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

Os livros que vieram para cá
O Lunário e a Missão Abreviada
A donzela Teodora e a fábula
Obrigaram o sertão a estudar
De repente começaram a rimar
A criar um sistema todo novo
O diabo deixou de ser um estorvo
E o boi ocupou outros lugares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo

No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
O nomes dos poetas populares
.....
Maria Bethânia deu voz e alma a esse poema de Antônio Vieira.
Que deveria estar na boca do povo.
DONA MARIA DO BATUQUE
Essa é a Dona Maria do Batuque.
São sei se ainda está viva, mas é certo que o som dos seus tambores ainda ecoa em São Romão, interior de Minas Gerais, uma pequena cidade esquecida pelo tempo, às margens do Rio São Francisco.
Tive o prazer de conhecê-la durante uma viagem pelo interior do Brasil. Foi uma viagem transformadora, onde tive o privilégio de viver um Brasil que não conhecemos pela televisão e pela realidade das grandes cidades. Um brasil de pé no chão, chão de terra. De dias longos, de horizonte largo, de necessidades que não compreendemos.
Um Brasil humilde, de gente seca pelo clima do sertão. Gente que espera, ajoelha e reza, com resignação. Mas gente de indizível beleza humana. E de grande sabedoria, que não vem com a leitura de livros ou com os ensinamentos da ciência. Sabedoria sobre as coisas da vida, aprendidas pelo simples viver da realidade.
Dona Maria do Batuque leva adiante uma tradição que aprendeu com seus avós: o batuque. Uma tradição popular que leva às ruas da pequena cidade a música e a dança do batuque, para ser compartilhada por todos. Tomamos um café com ela que, junto com seus netos, nos mostrou o que sabia sobre a cultura popular de sua região. Afinou seus tambores, e com a voz rouca pela idade avançada, cantou as canções que vêm de outras gerações. E as crianças, todas, seguiram a mesma melodia popular, batendo os tambores e cantarolando as rimas dos antepassados, tão atuais como as músicas que tocavam no rádio de pilha.
Dona Maria do Batuque deveria estar na boca do povo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Rilke

“Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso;
é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes.
Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua existência".
de Rainer Maria Rilke

terça-feira, 5 de maio de 2009

Bem no fundo

No fundo, no fundo, bem lá no fundo,
a gente gostaria de ver
nossos problemas resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada, e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.



De Paulo Leminki

E a foto é minha. Bil, Be, Ju, Theo e Nina num passeio de domingo

domingo, 3 de maio de 2009

Orquestra Popular de Câmara

Perdi as contas de quantas vezes assisti a Orquestra Popular de Câmara às quartas-feiras à noite, no Supremo Musical, em São Paulo.
Eram noites deliciosas. Cada semana levava um amigo diferente, precisava compartilhar aqueles momentos musicais com todo mundo que gostava.
O espaço era pequeno, aconchegante, e a música tomava conta de tudo. Criava-se uma atmosfera incrível, as notas preechiam todos os espaços, dentro e fora da gente.
Um copo de vodca, um bom papo, e música instrumental brasileira da mais alta qualidade.
ô saudade!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Tenho tantas vontades. Sou cheia delas.
Inundam-me diversas facetas de mim mesma.
Tantos contraditórios em carne viva.

Mas já aprendi que a escolha é a única saída possível.
E que a gente arde, sempre, seja qual for o caminho.

Quanto mais vivo, limito-me,
para caber em mim.
Permito-me a dúvida,
E a contingência.
Para respirar dentro do pequeno espectro possível.




Essa sou eu. A lente é do Bil, que muito me vê.

às vezes me pergunto porque não fui viver de música.
tem coisa melhor?