sexta-feira, 5 de junho de 2009

SARAVAH

Trechos do histórico filme do francês Pierre Barouh.
Sem mais palavras.
Beleza musical do começo ao fim.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

uma viola-de-amor

Dêem ao Homem Uma Viola-de-Amor e façam-no cantar um canto assim...
Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais...
Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos...
Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem delinqüência....
Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranqüilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca de que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para que eu cresça sempre no sentido de Tempo...

Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm.
E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre como um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos e dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e que meu largo canto vibre acima dos ódios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...

Dêem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste de tanta vã mentira que lhe ensinaram.

de Vinícius de Morais.
E a foto é minha.
Bernardo, Alice, Sol e Igor em momentos que me motivam a vibrar acima de todas as incoerências e impertinências do dia-a-dia, que insistem em ofuscar meus olhos para o que realmente importa na vida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Música da Lagoa

Hermeto fazendo música, e vivendo música.
Como deveria ser. Simples e verdadeiro.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Estou cansada. De fato, estou cansada.

..........

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



De Álvaro de Campos
E a foto é minha. Bob e Mara, nossos ex-vizinhos, num momento de paz.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O que vejo de longe, é o que ainda não vivi?


“Com as virtudes que esqueci
Posso fazer-me um traje novo?”

“é verdade que no formigueiro
Os sonhos são obrigatórios?”

“é verdade que as esperanças
Devem regar-se com orvalho?”

“e uma palavra não se arrasta
Às vezes como uma serpente?”

“em que janela fiquei
Olhando o tempo sepultado?”

De Pablo Neruda, do Livro das Perguntas.
E a foto é minha. Cultura Popular aqui no DF

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Somando as incompreensões é que se ama


.....E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto.

E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante......

Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer.....

... mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim.

É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão....


Trechos de "Perdoando Deus"

Clarice Lispector
E a foto é minha. Cenas do fim de tarde no planalto central


segunda-feira, 18 de maio de 2009

viva as quartas-feiras


"Que bobagem falar que é nas grandes ocasiões que se conhece os amigos! Nas grandes ocasiões é que não faltam amigos. Principalmente neste Brasil de coração mole e escorrendo. E a compaixão, a piedade, a pena se confundem com amizade. Por isso tenho horror das grandes ocasiões. Prefiro as quartas-feiras”.


de Mario de Andrade

não sei quem tirou a foto. mas o dia de amigos foi ótimo. eu, Be, Kiara, Luiza, Tetê e Guta, ainda grávida.