quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sensibilidades sem governo


E hoje esse poema da Adélia Prado me cai como uma luva, encaixando-se em minhas esquisitices e sensibilidades desgovernadas de ser mulher:


Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.

Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

E na foto, que tirei em Santos, o farol da minha infância que já não existe mais. Caiu, derrubado pelos anos e pela erosão da maresia. Hoje resta apenas a lembrança dessa paisagem do canal 6, com seus olhos voltados para a vida praiana.

Vontade de chorar o farol da minha infância, coisa totalmente sem governo...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

mamãe coragem


Ser mãe
É desdobrar fibra por fibra
Os corações dos filhos

Já disse sabiamente Torquato Neto, na sua famosa composição "mamãe coragem".

Pois é mães, é preciso coragem. Desbravar o universo intenso de emoções e questões que é gerar e criar um filho, é tarefa das mais sólidas. É tarefa de uma vida. Sorrio ao pensar que estou nessa, com todos os pesares e alegrias. E com todos os mistérios dos quais somos feitos.

O cansaço do corpo me lembra que envelheço - ao mesmo tempo em que a circularidade do tempo me ensina rejuvenecer. E rejuveneço ao sentir esses dois olhinhos que me olham firmes e vibrantes, e que me chamam de mãe frente à descoberta do mundo.

Coragem sim, coragem. Para cada passo que nos leva adiante.

E deixo essas linhas com outro poema de Torquato Neto - Cogito, no qual me cogito frente à imensidão do desconhecido.

eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível


eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora


eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranqüilamente

todas as horas do fim.

E a foto plácida que tirei do anoitecer em Pinguinguaba me lembra do vai-e-vem das ondas, que segue infinitamente vindo de um horizonte sem endereço.



quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Que soprem os ventos


"É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz um ninho no enrolar da fúria e voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos, passa e vai em frente
Ela não busca a rocha, o cabo, o cais
Mas faz da insegurança a sua força e do risco de morrer, seu alimento
Por isso me parece imagem e justa
Para quem vive e canta num mau tempo"

O raio de Iansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Iansã também sou eu
E Santa Bárbara é santa que me clareia

Trago esses trechos da Maria Bethânia para encerrar a viagem de final de ano - começo de ano, e para saudar e louvar a minha espiritualidade. Que soprem os ventos, que balencem as estruturas, e que venham as mudanças. Epa rei!

E a foto é minha, na feira da torre - onde soprava forte o vento que antecede as chuvas do planalto central.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Um mundo grande, para um feliz 2010.


Ao ler o Drummond nesta manhã de final de ano, pensei que não havia melhor mensagem para me despedir de 2009, e abrir as portas para o novo ciclo que se inicia.

E deixo-a nessas linhas, com desejo de que todos os corações cresçam no sentido de tempo e na direção do mundo - que não se acaba.

Que 2010 traga poesias, flores, amores.

Traga esperança e beleza para além das dificuldades dos nossos dias, que se erguem permeados de dores e misérias humanas. Dias melhores hão de vir, e virão pelas nossas mãos. Movidos pelos corações que pulsam e se expandem rompendo as cortinas dos escritórios engravatados e pautados pelas cifras bancárias.

Felicidades verdadeiras, para todos nós!

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Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso,
amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros, tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos, tão calma!
Vai inundando tudo...Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e
convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
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Carlos Drummond de Andrade
E a foto é minha. Be e Sol olhando o mundo grande, do alto dos seus quase 3 anos de idade.

domingo, 6 de dezembro de 2009

esperança ao ar livre


(Ah, os rostos sentados
numa sala de espera.

Um "Diário Oficial" sobre a mesa.
Uma jarra com flores.

A xícara de café, que o contínuo
vem, amável, servir aos que esperam a audiência
[marcada.

Os retratos em cor, na parede,

dos homens ilustres
que exerceram,
já em remotas épocas,

o manso ofício
de fazer esperar com esperança.

E uma resposta, que sempre será a mesma: só amanhã.
E os quase eternos amanhãs daqueles rostos sempre
[adiados
e sentados

numa sala de espera.)

Mas eu prefiro é a rua.
A rua em seu sentido usual de "lá fora".
Em seu oceano que é ter bocas e pés
para exigir e para caminhar.

A rua onde todos se reunem num só ninguém coletivo.
Rua do homem como deve ser:
transeunte, republicano, universal.

Onde cada um de nós é um pouco mais dos outros
do que de si mesmo.

Rua da procissão, do comício,

do desastre, do enterro.
Rua da reivindicação social,
onde mora
o Acontecimento.

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.


De Cassiano Ricardo (sala de espera) - para todas as nossas esperanças e desejos de mudança do lado de fora. Uma doa dose de ânimo poético para enfrentar e participar da rua de nossos dias.

E a foto é minha, com as crianças correndo e construindo a realidade que se apresenta nos arredores da chácara.

domingo, 29 de novembro de 2009

O tempo e as essências


33 anos, enfim. Chego ao meu novo ano no lugar de onde vim.
Retornei, para alguns dias, à casa materna, aos amigos do peito, ao pai e à mãe, à família de sangue, à família espiritual e à família que a gente escolhe.

Na companhia do meu filho, acolheram-me as minhas raízes e o amor que me nutriu até a partida para uma nova etapa no planalto central do Brasil. Emocionei-me, sem pudor, com cada abraço e cada sorriso que ganhei ao longo dos dias. E fiquei feliz, intensamente feliz, como uma criança de 3 anos imersa no mar pela primeira vez. Enquanto meu filho pulava as ondas e lambia as gotas salgadas com o prazer da descoberta, eu redescobria as minhas essências - com o mesmo prazer do desconhecido.

Tão bom saber que certas coisas não mudam! E não mudam porque são verdadeiras - e crescem a cada dia, à despeito da distância. Mudam-se os detalhes, as circunstâncias, as cores da vida cotidiana. Mas algumas essências resistem ao tempo e ao espaço. E são elas que nos impulsionam para todas as coisas que se seguem.

Sim, somos passado, presente e futuro, numa linha de tempo circular. O que foi, ainda é - e é para ser enquanto houver amor e vontade. O que não é mais um dia foi, e por isso ainda existe - em algum lugar, numa nova forma que se criou a partir do que já não mais pode ser.

E hoje agradeço por tudo que sou, pelos sentimentos verdadeiros que troquei, e ainda troco, com todos aqueles que me compõem. Agradeço por ver crescer o que plantei ao longo dos anos, pelas sementes férteis que foram regadas com cuidado e floresceram em amizades e histórias lindas, que hoje se reproduzem sozinhas. Acho que esse é o melhor presente que se pode ganhar aos 33.

E deixo aqui um registro especial para um lugar também especial: a roda de samba do ouro verde.

No pé do Marapé, em Santos, um clube de bairro se torna um lugar mágico aos sábados à noite. O ouro verde se perpetua no tempo com a energia boa daqueles que sabem que samba se faz com humildade e felicidade.
É cultivado com muito carinho pelos seus sambistas de cabelos brancos e encanto inigualável, sempre sorridentes pelo simples prazer de se fazer samba. Rodeados por amigos, familiares e pessoas queridas que cantam as letras imortais dos velhos e bons sambas, o ouro verde não perde sua essência. E que bom poder fazer parte, um pouquinho só, dessa grande família unida pelo que a nossa música brasileira tem de melhor.

Estive lá, depois de alguns anos, e fui recepcionada pelos mesmos olhares delicados, pela mesma identificação e admiração, e pela vibração boa de seus repiques, cavacos, trombone, tamborins, pandeiros e afins. Encontrei as mesmas personalidades ao redor, as mesmas palmas, o mesmo passo candenciado no pé. Estou certa de que minha alma de sambista ali encontrou guarida. E sempre estará por lá, como as dos que se sentavam no meio da roda e já se foram.

Nelson Cavaquinho anunciou que "o sambista vive eternamente, no coração da gente". E no meu coração, o Ouro Verde vive eternamente.

Deixo uma foto de lá. E sigo para enfrentar o novo ano renovada pelos amores que me fazem o que sou hoje.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O meu destino e eu


Não sou a areia onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo, em cada praia renascendo outra.

Sou a orelha encostada na concha da vida,
sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

de Lya Luft

"Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino;
um homem é, afinal, suas circustâncias" - de Jorge Luiz Borges
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Deixo as reflexões que tem me conduzidos nestes dias, e sigo correndo para cumprir o meu destino - que nesta semana me reserva grandes desafios.
E deixo também uma foto que tirei no fim de semana, que foi permeado por crianças livres e nuas correndo pelo jardim.