segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O diário de Silvia



"A quem mais posso me confessar senão a mim mesma?
Isso prova que, como todo o mundo, tenho dupla personalidade.
Agora sou a que escreve e depois serei a que lê.
Tenho muitas Sílvias dentro de mim. Cada vez que eu reler essas páginas, serei outra.
E cada uma dessas outras será diferente da que escreveu. E mesmo a que escreveu não foi sempre a mesma, mas várias. Isso tudo me alarma um pouco..."

De Érico Veríssimo. O diário de Silvia. O único livro deste autor que eu li, por uma razão um tanto óbvia. E gostei muito. Me senti mesmo Silvia, vinda de muitas Silvias, indo para muitas outras mulheres das selvas. 

E na foto um momento inusitado do sábado em Brasília, que captei com lentes curiosas de anoitecer.  

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Delicadezas do cerrado



"Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza."

De Caio Fernando Abreu

E na foto uma das delicadezas do cerrado, que me chegam de repente, a me encantar a alma. E assim sigo, quase com certeza do caminho que se abre.

domingo, 3 de outubro de 2010

Erupções


Ando apaixonada por Anais Nin. Seus escritos são um presente neste tempo martelado de questionamentos e mergulhos em águas profundas. Sábia e corajosa mulher, que ousor romper algumas das duras amarras morais da década de 30. 

Deixo um pouquinho dela, e do que anda permeando meus pensamentos neste início de mês, que resolveu trazer o alento das águas e resfresco da umidade:

 O ímpeto de crescer e viver intensamente, foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.  A vida não é racional! É louca e cheia de mágoa. Mas não quero viver comigo mesma. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.  Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação.  A verdade é que sou inconstante,com estímulos sensuais em muitas direções. Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.

E na foto um registro das minhas redes de ler e deixar flutuar os pensamentos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Desconstruída

Ando desorganizada. Desconstruída. Indagando-me quem sou eu. 
Recebi como resposta este trecho da Clarice Lispector de uma amiga querida.  É, faz todo sentido neste momento da vida.....




Compartilho:

"Estou desorganizada. (...)
É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira que vivo. (...) Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?” 


E na foto as minhas paisagens também desorganizadas pela seca. Esperando que se faça o verde novamente. 

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Como me sinto?



Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim , a mim que sou cego : isso é aquilo que vê , essa é a matéria que vê . Toco os dois olhos sobre a mesa , lisos , tépidos ainda , arrancaram há pouco, gelatinosos , mas não vejo o ver . É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito , e desbocado e cruel , manchado de tintas , essas pardas escuras do não saber dizer , tento amputado conhecer o passo , cego conhecer a luz , ausente de braços tento te abraçar.


Hilda Hist

Sim, é como me sinto nessas semanas de mergulho em águas densas......

E a foto que deixo capta um momento de vizinha, no fim de tarde encantado do cerrado

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Silêncios


Ando permeada de silêncios. Imensos espaços vazios. Reticências. Travessões sem falas desmedidas.
Fundamental calar a voz. Deixar os sentimentos pulsarem livremente, sem traduções.
Apenas sentir. Ouvir o silêncio que se ergue cuidadoso, zelando pelo pulsar do peito.

Silêncio branco. Silêncio de muitas faces. Silêncio meu.

Silêncio que colho com os dedos molhados, que tocam a terra fecundada pelas indagações da vida-vivida.

Deixo um poema do Manoel de Barros, que lindamente fotografa o silêncio com poesia. E a foto que tirei de uma de minhas paisagens santistas, que tanto abrigou meu silêncio junto ao mar.

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

pelos caminhos que ando


Pendurei na parede esse poeminha do Leminski.
E ele reluz nos dias de frio:

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando


Na foto deixo as flores que resolveram colorir as matas aqui de casa.
minhas lentes ficaram encantadas!