segunda-feira, 28 de março de 2011

O peso e a leveza



O peso e a leveza. 
Milan Kundera volta a rodear meus dias, com suas indagações sobre essa contradição que tanto nos funda. 
Por tantas vezes já me senti como Tomás, personagem da Insustentável Leveza do Ser, olhando os muros sujos do pátio sem compreender o que sentia, sentindo-se esmagado entre o dilema do peso e da leveza. 

Ao longo da vida divido-me entre pesos e levezas. E hoje não acredito que seja possível escolher entre um e outro. Os dois nos permeiam, sempre, num vai-e-volta de ondas do mar. De ondas de viver assumindo os dilemas e os nossos próprios paradoxos.

Acredito que somos paradoxais. Eu sou.
Aqui vai o Kundera, em sua insustentável leveza.
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Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa idéia é atroz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que levava Nietzsche a dizer que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht).
Mas será mesmo atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é.
Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
O que escolher, então? O peso ou a leveza?
Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em pares de contrários: a luz/a escuridão; o grosso/o fino; o quente/o frio; o ser/o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Exceto em um dos casos: o que é positivo, o peso ou a leveza?
Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não teria razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a mais ambígua de todas as contradições.

E na foto um momento leve que captei nas brincadeiras das crianças aqui da chácara

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

analfabeto de si mesmo


Coisa linda de Caio Fernando Abreu.

Eu aqui na varanda, montanhas de tarefas, e pensando nas minhas securas e incompreensões sem pistas. O livro ali, a me fazer companhia para a travessia desse deserto. O sol forte, algumas miragens, algumas despedidas. A areia quente, as noites frias. A solidão.

Onde estou? Talvez esteja mesmo seca, Caio. Obrigada pela companhia.

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"Tinha secado: esse era talvez o ponto. Não a palavra exata, que já não tinha essas pretensões, mas a mais próxima. Sabia pouco a respeito de árvores, ou sabia de um jeito não-científico, desses de tocar, cheirar e ver, mas imaginava que o processo interno de ressecamento começasse bem antes da morte aparecer no verde brilhante das folhas, na polpa dos frutos ou na casca do tronco. Não era evidente nem externo ou explícito o que padecia. E padecia? perguntava-se detalhando os traços com as pontas dos dedos, nada que revelasse na umidade da boca ou num contorno de nariz — uma dor? Não era assim. Gostaria de voltar atrás, com sentimentos curtos e claros feito frases sem orações intercaladas, iluminar aos poucos, um mineiro, uma lanterna, o poço fundo, uma linguagem? A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens.

Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre. As luvas brancas, as longas pinças esterilizadas com que tocava sem tocar o todo, o tudo e o si. Um vício que lhe vinha quem sabe da mania de ouvir música erudita, mesmo enquanto apenas vivia, antes os fones nos ouvidos que os gritos na vizinhança. E por mais que afetasse um ar de quem lentamente cruza as pernas em público, puxando com cuidado as calças para que não amarrotassem, saberia sempre de sua própria farsa. Tão consciente- mente falsa que sua inverdade era o que de mais real havia, e isso nem sequer era apenas um jogo de palavras.

A grande mentira que ele era, era verdade. Ou: a mentira nele nunca fora fraude, mas essência. Seu segredo mais fundo e mais raso, daí quem sabe a surpresa branca de quando ouvira um quase-amigo dizer que não passava de uma personagem. Prometera-se sentimentos sem intercalados, mas sentia agora uma necessidade de explicar ao ninguém que superlotava sua constante platéia, com ele sempre fora assim: quase-amigos, nada de intimidades. Mas voltando atrás no ir adiante: uma surpresa quê. Não, não uma surpresa quê. Uma não-surpresa surpreendida, pois como e porque se fizera visível e dizível naquele momento o que nem sequer alguma vez escondera? Perdia-se, não eram teias. Nem labirintos. Fazia questão de esclarecer que sua maneira torcida não se tratava de estilo, mas uma profunda dificuldade de expressão. Por esse lado, quem sabe? As emoções e os pensamentos e as sensações e as memórias e tudo isso enfim que se contorce no mais de-dentro de uma pessoa — tinham ângulos? Havia lados mais como direi? Fragmentava-se: era os pedaços descosturados de uma colcha de retalhos. Pedia atenção aqui, por favor, mais por gestos, entonações ou simplesmente clima, e regirava: era os retalhos, um por um, não a colcha, ele. Desde o xadrez vermelho ao cetim roxo sem estampa, e assim por diante, todos. Quase parava de aborrecer-se então, como quem troca súbito uma peça para violino e cravo por um atabaque de candomblé. O leve tédio suspenso como poeira espanada logo voltava a desabar. O bocejo era a compreensão mais amarga que conseguia de si mesmo. E posto isso, cabia a seguir qualquer atitude desesperada como casar, tentar o suicídio, fazer psicoterapia ou um concurso para o Banco do Brasil.

Localizava-se, mais fácil assim, dando nome às coisas. Um entusiasmo tênue como o gosto de uma alface. Isso, estar, ser. Uma vontade de interromper- se aqui, paladar estragado pelo excesso de cigarros tentando inutilmente dar um nome ao gosto que fugia entre os dentes. Em algum quarto, há muito não sabia de línguas no seu corpo, ou tão sabidas tinham se tornado que. Vacilava entre a certeza quase absoluta de estar alcançando qualquer coisa próxima de uma sabedoria inabalável, alta como um minarete, gelada como um iceberg — melhor assim: uma montanha de compreensão sem dor de todas as coisas. Ou, talvez o ponto, nem icebergs, nem minaretes — mas árvore. Inventava com os olhos no ar vazio à sua frente um verde copado de sumarentos frutos, como se diria num outro tempo, se é que alguma vez se disse, dizia sim, dizia agora, desavergonhado e frio. Verde copado de sumarentos frutos. Folhagem de seda lustrosa. Tronco pétreo ancestral. O seco invisível como verme instalado no de-dentro. Impressentível, sob a casca, caminhando lento, questão de tempo, apenas, e semente contendo o galho crispado, mão de bruxa, roendo. Tinha dois olhos duros. Dois olhos grandes de quem vê muito, e não acha nada. Tinha secado, era certamente esse o ponto. Nunca a palavra exata, esclarecera de início. Já não tinha mais essas pretensões."

E na foto um pouco das minhas paisagens secas do cerrado.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Em tempo de rosa


Neste fim de ano ganhei um presente que me tocou fundo. Um livro. Um livro simples e grandioso, da Alice Ruiz, chamado "Proesias". O livro me engoliu de delicadezas. Boas delicadezas escritas por essa mulher que, certamente, tem o que dizer. As imagens em xilogravuras, que acompanham as letras corridas, tecem outras poesias - em miradas cuidadosas. Realmente, foi um presente de apaziguar a alma.

Em tempo de rosa, especialmente, comoveu-me pela leve poética e beleza de sentimentos. Veio ao encontro de um aperto no peito que insistia em se calar sem ser ouvido. Acalentei-o, enfim, com a "proesia" de Alice.
E aqui está:

Tinha um riso inteiro no que eu me lembre. Tinha alguma coisa já conhecida no que me esqueço. E era o poema que tinha dentro.
Nem maior, nem menor. Igual, nem nunca.
Fiquei assim sorvendo a risada no ar. Minha ou dele, na mesma.
O ter que falar dele foi parte desse caminho meu, o das palavras.
Não é que ele era um que podia responder? Parecia, sim.
E o sorriso aumentava por dentro. Por fora, se mantendo.
Que nem quando as mãos se tocam e os olhos se enchem de borboletas, asas a mil.

Mas isso num assim, como se nada tivesse acontecido.
Que lá sou eu alguém que, às vezes, nem que dou conta de estar aqui.
Dá para inventar uma pessoa inteira, ou poema, quando ainda não se sabe.
Depois é mais difícil.
Esse que eu vi, foi meu olhar que inventou? E como então ele poderia continuar vindo?
Dele já tenho saudade. De nós. Da dupla.
Dupla é uma que é sempre duas, refletida em si mesma,
onde o um nunca se ausenta sozinho, num ensimesmamento que não tem mais jeito.

Diante de si, ás vezes imóvel, outras tremulante,
outras nem tanto, sempre o reflexo.
Se reconhecem? É mesmo frente a frente que a gente se vê melhor ou seria de soslaio que o olho saberia mais?
O corpo, a mais imanente das transcendências, por exemplo,
precisava mesmo estar ali, quando tinha toda essa felicidade na dança dos pensamentos? Sim.

Luminosos como só no sonho. Ali, talvez, o conhecimento de nós.
Nessa rarefação, matéria sutil de que é feita a textura do sonho, concordamos. Acordamos.
Lá, onde não estamos, estamos completamente.
Pétala sobre pétala.
Verso sobre verso.
 - Alice Ruiz - 


E na foto um momento que captei, ainda com a minha velha pentax, nos lados de Goiás Velho, a bela cidade de Goiás. 






quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Pregos enferrujados


Um homem catava pregos no chão.

Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.
 - Manoel de Barros -

Inspiro ar aos pulmões com a poesia de Manoel de Barros. Olho ao redor e inundo-me de urgências de TER. Sufoco-me. Sofro as mesquinharias daqueles que pulsam em nome de TER. Um TER que não tem barreiras. Daqueles que se esquecem que SÃO, em meio a outros que também SÃO, com a existência sagrada que respira o caminhar dos dias. Existência essa tão negligenciada. Tão esquecida em meio a uma existência concreta de funcionalidades capitalistas. De status quo de papel.
Eu quero é continuar catando meus pregos enferrujados.

E na foto um registro dos meus pequenos buscando sentido em formigas, pedras e flores de jardim.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O diário de Silvia



"A quem mais posso me confessar senão a mim mesma?
Isso prova que, como todo o mundo, tenho dupla personalidade.
Agora sou a que escreve e depois serei a que lê.
Tenho muitas Sílvias dentro de mim. Cada vez que eu reler essas páginas, serei outra.
E cada uma dessas outras será diferente da que escreveu. E mesmo a que escreveu não foi sempre a mesma, mas várias. Isso tudo me alarma um pouco..."

De Érico Veríssimo. O diário de Silvia. O único livro deste autor que eu li, por uma razão um tanto óbvia. E gostei muito. Me senti mesmo Silvia, vinda de muitas Silvias, indo para muitas outras mulheres das selvas. 

E na foto um momento inusitado do sábado em Brasília, que captei com lentes curiosas de anoitecer.  

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Delicadezas do cerrado



"Então, de repente, sem pretender, respirou fundo e pensou que era bom viver. Mesmo que as partidas doessem, e que a cada dia fosse necessário adotar uma nova maneira de agir e de pensar, descobrindo-a inútil no dia seguinte - mesmo assim era bom viver. Não era fácil, nem agradável. Mas ainda assim era bom. Tinha quase certeza."

De Caio Fernando Abreu

E na foto uma das delicadezas do cerrado, que me chegam de repente, a me encantar a alma. E assim sigo, quase com certeza do caminho que se abre.

domingo, 3 de outubro de 2010

Erupções


Ando apaixonada por Anais Nin. Seus escritos são um presente neste tempo martelado de questionamentos e mergulhos em águas profundas. Sábia e corajosa mulher, que ousor romper algumas das duras amarras morais da década de 30. 

Deixo um pouquinho dela, e do que anda permeando meus pensamentos neste início de mês, que resolveu trazer o alento das águas e resfresco da umidade:

 O ímpeto de crescer e viver intensamente, foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.  A vida não é racional! É louca e cheia de mágoa. Mas não quero viver comigo mesma. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela.  Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação.  A verdade é que sou inconstante,com estímulos sensuais em muitas direções. Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar.

E na foto um registro das minhas redes de ler e deixar flutuar os pensamentos.